Infarto antes dos 60 em São Paulo: o que os dados revelam e como se proteger


Uma pesquisa que merece atenção — e interpretação cuidadosa
Um levantamento apresentado no Congresso Internacional de Cardiologia da Rede D'Or 2026 chamou atenção para um dado preocupante: entre pacientes atendidos por infarto em hospitais privados de São Paulo, a idade média foi de 58 anos. Em outros estados, esse número foi consideravelmente mais alto — 62 anos no Rio de Janeiro, 69 em Pernambuco e no Distrito Federal, 71 no Ceará e 72 na Bahia.
O estudo avaliou mais de 7 mil pacientes com dor torácica, em 59 hospitais da rede, entre janeiro de 2025 e março de 2026.
O número chama atenção — mas precisa ser interpretado com cuidado.
São Paulo realmente faz as pessoas infartarem mais cedo?
Ainda não podemos afirmar isso. O levantamento é observacional e foi realizado em hospitais privados de uma única rede. Além disso, diferentes estados possuem populações com características demográficas, socioeconômicas, epidemiológicas e de acesso à saúde muito distintas.
Portanto, não é possível concluir que morar em São Paulo seja a causa de um infarto mais precoce. Uma associação observada em um estudo não significa necessariamente uma relação de causa e efeito. Os próprios pesquisadores destacaram que hipóteses como maior exposição à poluição e ao estresse urbano precisam ser investigadas antes de qualquer conclusão definitiva.
Ainda assim, o dado merece atenção. E talvez ele nos ajude a fazer uma pergunta muito mais importante: o que estamos fazendo ao longo da vida para que uma doença historicamente associada à idade avançada apareça cada vez mais cedo?
O coração não infarta de uma hora para outra
O infarto pode parecer um acontecimento súbito. A placa de aterosclerose se rompe, forma-se um trombo, a artéria coronária é obstruída e o músculo cardíaco começa a sofrer. Mas o processo que levou até aquele momento pode ter começado muitos anos antes.
Hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes, obesidade, tabagismo e sedentarismo contribuem progressivamente para a formação e a progressão da doença aterosclerótica. As diretrizes internacionais reconhecem esses fatores entre os principais determinantes modificáveis do risco cardiovascular.
Por isso, o infarto que acontece aos 58 anos não necessariamente começou aos 58. Em muitos casos, ele é o resultado de décadas de exposição a esses fatores — silenciosos, indolores e, frequentemente, não tratados.

O perfil de risco dos pacientes é revelador
Um estudo publicado em 2025 nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia ajuda a entender melhor esse cenário. Pesquisadores do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia acompanharam prospectivamente 5.580 pacientes internados por síndrome coronariana aguda, entre agosto de 2018 e outubro de 2022. A mediana de idade foi de 62 anos.
Mas o dado mais impactante não foi a idade. Foi o perfil de risco:
80,4% tinham hipertensão arterial
72,5% apresentavam sobrepeso ou obesidade
56,6% eram diabéticos
53,5% tinham dislipidemia
20,6% eram fumantes
99,3% foram classificados como sedentários
Esses números colocam a notícia em perspectiva. Talvez o problema não seja simplesmente que o paulistano esteja infartando mais cedo. Talvez estejamos identificando uma população que chega à meia-idade carregando uma quantidade significativa de fatores de risco cardiovascular — sem saber disso.
E o estresse? E a poluição?
São Paulo é uma das maiores metrópoles do mundo. Trânsito, jornadas prolongadas, privação de sono, estresse psicológico, sedentarismo e exposição à poluição fazem parte da realidade de muitos dos seus moradores.
É tentador atribuir a diferença encontrada no levantamento exclusivamente ao estilo de vida urbano. Mas a ciência exige cautela.
O que sabemos é que esses fatores podem influenciar a saúde cardiovascular. Uma meta-análise envolvendo 118.696 indivíduos encontrou associação entre níveis elevados de estresse percebido e maior risco de doença coronariana. Uma revisão sistemática de 26 estudos encontrou associação entre exposição a partículas finas (PM2,5) e aumento relativo no risco de infarto.
Isso não significa que "a poluição causou o infarto daquele indivíduo específico". Significa que a exposição ambiental pode fazer parte de um conjunto de fatores que, ao longo do tempo, modificam o risco cardiovascular de uma população.
O que fazer com essa informação?
A melhor resposta não é ter medo. É antecipar o cuidado.
A prevenção cardiovascular precisa acontecer antes do primeiro evento. Isso significa:
Conhecer a própria pressão arterial
Avaliar o perfil lipídico regularmente
Identificar diabetes ou pré-diabetes quando indicado
Monitorar o peso e a composição corporal
Não fumar
Praticar atividade física com regularidade
Adotar uma alimentação adequada
Prevenção não é simplesmente fazer um "check-up" anual. Prevenção é acompanhar o risco ao longo do tempo. Uma pessoa de 45 anos pode estar se sentindo perfeitamente saudável e, ainda assim, apresentar hipertensão, LDL-colesterol elevado, diabetes ou obesidade — sem nenhum sintoma.
A ausência de sintomas não significa ausência de aterosclerose.

O infarto pode acontecer aos 58. A prevenção começa aos 40
Esse talvez seja o principal ensinamento desse dado.
Não devemos olhar para os 58 anos como uma sentença ou como "a idade do infarto". Devemos olhar para os anos que antecedem essa marca — porque existem duas histórias acontecendo ao mesmo tempo.
A primeira é a história do infarto: o momento em que a artéria fecha. A segunda é a história da aterosclerose: silenciosa, progressiva, construída ao longo de anos.
A primeira pode acontecer em minutos. A segunda pode levar décadas.
Por isso, quando vemos um dado dizendo que determinadas populações estão infartando mais cedo, a pergunta mais importante não é: "Por que eles estão infartando aos 58?" É: "O que posso fazer aos 40, 45 ou 50 anos para que esse infarto nunca aconteça?"
Essa é a essência da prevenção cardiovascular. Não esperar o coração pedir socorro para começar a cuidar dele.
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